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Os dois relógios começam a discordar — maio de 2011
Episódio
O extremo
A confiança parecia ter vencido a cautela. O apetite por risco no Brasil firmou-se sem ambiguidade naquele fim de mês, e o investidor, enfim, deixou de pagar caro pelo abrigo. Os três refúgios clássicos da casa afrouxaram juntos — fundos imobiliários, elétricas e commodities em reais devolveram quase todo o prêmio que carregavam. O dinheiro saiu da toca. Mas, por baixo desse otimismo, a estrutura interna do mercado recusou-se a confirmá-lo: enquanto a temperatura agregada subia, as razões entre setores ainda marcavam recuo. Dois termômetros, duas leituras opostas — e era esse divórcio, não o otimismo, o verdadeiro fato do mês. Em números: o Índice de Risco Perene saltou de 86,4 a 98,6, enquanto o intermercado fechou em 33,37, ainda abaixo da neutralidade; a razão IFIX/IBOV despencou de um z de 2,85 para 0,77 — o movimento isolado mais brusco do período.
O que aconteceu depois
A firmeza não durou. Dois meses adiante, o mesmo Índice de Risco Perene que cravara 98,6 havia colapsado para 14,8 — em agosto/2011 ele se recompunha às pressas a 69,2, num mês em que o real desvalorizado, e não os fundamentos, inflava o preço das commodities. A discordância entre os termômetros não se desfez; aprofundou-se. Em novembro/2011, o apetite doméstico subiu ao ponto mais alto do período (86,0) enquanto a estrutura de intermercado afundava a 23,23, em risco reduzido forte, com o capital fugindo do setor financeiro. O divórcio só se resolveu um ano inteiro depois: em maio/2012, o Índice de Risco Perene capitulou de 78,5 para 18,8, cruzando enfim para risk_off. Os dois relógios voltaram a bater juntos — mas pelo lado pessimista.
O que não aconteceu
A maré alta de maio não era terreno firme. Quem leu o 98,6 como consolidação errou o tempo: a leitura não se sustentou sequer dois meses. E a divergência não se fechou pelo lado otimista — a estrutura cautelosa nunca subiu para confirmar o apetite. Foi o apetite que desabou para encontrar a cautela. A reconciliação custou um ano e uma capitulação.
Veredito honesto
A leitura de maio capturou uma rotação real — o prêmio do abrigo de fato escoava. Mas confundiu firmeza com resolução. O sinal que importava não era o número alto; era a discordância entre os dois termômetros. E discordância, no Radar, raramente anuncia consolidação: costuma anunciar instabilidade.
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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
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