Radar Perene / Artigos / episódio
O abril de 2025 sob tarifas — o apetite gritou, o dinheiro saiu em ordem
Episódio
Por fora, a festa seguia no auge. O apetite por risco da bolsa brasileira não só estava alto — escalava, fundo no território de quem quer comprar. Mas quem olhasse para onde o dinheiro de fato ia veria outra cena: nas matérias-primas, sangrava. O pano de fundo era de tensões sobre comércio e tarifas, e o complexo de commodities é o primeiro a sentir quando o apetite global por mercadoria física esfria.
O extremo
O sinal mais nítido do mês foi a razão que prende a bolsa ao mundo físico. As ações de matérias-primas — minério, papel, petróleo, proteína — desabaram contra o índice, e o dinheiro correu para receita contratada: energia, saneamento, concessão. Não houve estouro de manada. Houve um abandono ordenado, em formação, de tudo o que depende de mercadoria para ganhar dinheiro. Em números: a razão Commodities/IBOV de z −1,34 para −2,69 — o maior movimento da grade —, enquanto Utilities/IBOV subia a +2,62 e o intermercado recuava de 43,37 para 32,62, em risk-off moderado. O humor seguia travado no otimismo extremo, 77,5, e o apetite por risco cravava 91,0.
O que aconteceu depois
A discordância — apetite gritando compra, estrutura saindo de fininho — não durou. Três meses depois, em julho/2025, ela se resolveu, mas não pelo lado que o otimismo esperava: foi a euforia que despencou para encontrar a estrutura. O humor caiu de 92,3 para 39,0, o apetite de 76,4 para 17,5. A febre baixou; a doença, não. Em outubro/2025, seis meses depois, os dois eixos desinflaram ao neutro e as commodities pararam de cair contra o índice (de z −1,34 para −0,37). E o veredito de seis meses para o próprio abril foi de Acerto: o mercado rendeu +8,8%, dentro da faixa central da distribuição.
O que não aconteceu
O rompimento a −2,69 não anunciou um crash. Não houve colapso, nem estampido — só o gotejar de quem troca risco por receita previsível. O apetite a 91,0 tampouco foi premiado: a divergência se resolveu pela queda do entusiasmo, não pela vitória do risco. E, apesar de toda a leitura defensiva que a estrutura registrava, o mercado subiu +8,8% em meio ano. Nem o lado eufórico nem o estrutural venceu limpo.
Veredito honesto
A fuga ordenada das commodities leu o regime: prenunciou a reconciliação por baixo que chegou em julho. Mas um extremo de razão não é um gatilho de colapso, e um retorno de +8,8% lembra que ler para onde o dinheiro foge não é o mesmo que prever o preço.
Continue a história: A febre de 2025 · Commodities em real · A Selic a 15% e a euforia que cede →
O Radar lê esses regimes todos os dias. Veja a leitura de hoje →
Leia também: A febre de 2025 — quando a euforia desceu para encontrar a estrutura · Commodities em real: quando o câmbio move a razão · A Selic a 15% e a euforia que cede
Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
Ver a leitura de hojeConhecer a Edição Founder →