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Dez anos da crise de 2015: o zero que não foi o fim
Artigo
O extremo
Uma escala que vai de zero a cem chegou ao zero. Não havia registro menor possível para o medo doméstico — e, mesmo assim, o pior do ciclo ainda estava à frente. Naquele agosto, os três alarmes da casa tocaram em coro: câmbio, dívida pública e tensão fiscal romperam suas próprias bordas históricas quase no mesmo instante. Em números: o Índice de Risco Perene desabou de 79,1 para 0,0, o piso absoluto da escala; o sistema de intermercado encolheu de 21,32 para 14,64; o dólar fechou a R$ 3,5143 e a dívida pública alcançou 62,97% do PIB.
O que aconteceu depois
O fundo da escala não era o fundo da queda. Três meses depois, em novembro, o capital abandonou as commodities com pressa e correu para o que rende sem depender da economia girar — as Utilities subiram ao ponto mais alto da leitura, e o intermercado afundou ainda mais, de 20,65 para 12,19. O degelo só veio em 2016, e veio estranho. Em março, os bancos saltaram de um dos pisos da série à neutralidade num único mês, e o ânimo da casa disparou para 95,5 — otimismo extremo — enquanto a estrutura de risco mal saía do neutro. A normalização de verdade só chegou em agosto de 2016: o intermercado cruzou para 50,14, terreno neutro, com o dólar de volta a R$ 3,2097. Um ano inteiro separou o grito do silêncio.
O que não aconteceu
O zero de agosto de 2015 não foi o fundo — novembro foi pior. A recuperação tampouco veio por um salto de fé: quando os preços relativos viraram, em março de 2016, foi o ânimo que gritou comprar, não a economia, que seguia defensiva. A Selic não se mexeu para socorrer ninguém: ficou cravada em 14,25% ao ano do começo ao fim do episódio. E o dólar não reverteu de imediato — passou de R$ 3,51 a quase R$ 3,98 antes de ceder, e só um ano mais tarde voltou aos R$ 3,21.
Veredito honesto
Dez anos depois, a lição do zero é a mais incômoda que o arquivo guarda: o fundo de um indicador não é o fundo do ciclo. A escala marcou o seu menor número possível e a queda continuou — porque a aversão máxima assinala o começo de um processo, quase nunca o fim de uma descida. A normalização não foi um instante. Foi um ano, lido mês a mês.
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Personagens: Fluxo (apetite por risco) · Estrutura (intermercado) · Humor · Dólar
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
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