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A inflação que ainda não tinha chegado à mesa — o IGP-M a 3 sigma de setembro de 2020

Episódio

O extremo

Dois termômetros domésticos caíram de mãos dadas, e um terceiro recusou-se a acompanhar. O humor e a alocação local recolheram-se ao chão da régua; a estrutura de setores, medida de fora, mal se mexeu e seguiu em risk-on. Mas a peça que de fato destoava de tudo não estava no medo — estava num índice de inflação que disparou mais de três desvios acima de sua média, enquanto o preço na mesa do consumidor continuava brando. Era inflação de atacado, de contrato indexado, de insumo importado: a digital de um real fraco antes de ele chegar ao varejo. Em números: o Ânima de 35,2 a 26,2, o risco perene de 46,2 a 6,4, o IGP-M a 4,34% no mês (z de 3,16), o IPCA a apenas 0,64%, o dólar a R$ 5,40 e a Selic ainda em 2,0% ao ano.

O que aconteceu depois

O sinal não cobrou a conta de imediato — cobrou-a com quase um ano de atraso. Antes que a inflação mordesse, veio a euforia: em dezembro/2020 os três termômetros pararam de discordar, com o risco perene saltando de 58,4 para 95,7 e o Ânima cravando otimismo extremo. A divergência de setembro resolveu-se para cima, não para baixo. Só então o atacado alcançou a mesa: a Selic, parada em 2,0%, começou a subir em março/2021 e chegou a 6,25% ao ano em setembro/2021, com o IPCA mensal já em 1,16%. E o refúgio cambial voltou — as commodities em real dispararam de novo (z de 0,12 a 1,53), agora com o humor doméstico em ruína, o Ânima a 9,4.

O que não aconteceu

A queda dos termômetros domésticos não significou retração imediata. Quem leu o risco perene em 6,4 como "o capital já se recolheu, não há mais apetite" teria perdido a euforia de dezembro. O IGP-M tampouco contaminou o varejo no mesmo mês — a distância para o IPCA brando era justamente a assinatura disso. E a Selic não reagiu à anomalia: ficou cravada em 2,0% por mais meio ano antes do primeiro aperto.

Veredito honesto

O sinal de setembro acertou a natureza da pressão — câmbio e atacado, não demanda aquecida — mas errou o calendário por completo. Uma anomalia de inflação de produtor anuncia um vetor, não uma data. Entre o tremor no IGP-M e o ciclo de juro que ele prenunciava, o mercado ainda atravessou um pico de euforia. Ler o regime é uma coisa; cravar quando ele cobra a conta, outra.

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar · Anomalia estatística

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