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Selic a 14,25% e a 3,75%: o juro que não mandava no humor
Artigo
O extremo
Entre 2015 e 2020, o preço do dinheiro no Brasil percorreu os dois extremos da sua história recente — e, nas duas pontas, o humor de mercado ignorou a tabela de juros. Em agosto de 2015 a Selic estava cravada no teto de um aperto, alta o bastante para sufocar qualquer economia, e ainda assim o apetite por risco doméstico tocava o piso absoluto da escala. Em março de 2020 o juro despencou ao menor patamar já visto, e o medo, em vez de recuar diante do crédito barato, virou liquidação. Dois preços opostos do dinheiro, a mesma leitura de aversão.
Em números: agosto/2015 — Selic 14,25% ao ano, IPCA de 0,22% no mês, Índice de Risco Perene em 0,0, dólar a R$ 3,5143. Março/2020 — Selic 3,75%, IPCA de 0,07%, dólar a R$ 4,8839 (anomalia estatística) e o índice subindo de 0,0 para 10,6, mas em saída de risco.
O que aconteceu depois
Em 2015, o juro no limite não ancorou nada do que deveria. O dólar não parou de subir, a dívida pública seguiu em desvio raro a 62,97% do PIB, e o sistema de intermercado encolheu de 21,32 para 14,64 — fuga do ciclo, não retorno da confiança. O remédio monetário já estava no máximo, e o paciente não respondia. Em 2020, o corte veio junto do abismo: o humor doméstico, medido pelo Ânima, caiu de 4,1 para 2,6, raspando o piso, enquanto o juro barato não comprou um único comprador. A diferença foi a velocidade — a estrutura brasileira ampla ainda marcava risk-on em 56,8, defasada do pânico que já tomara o sentimento.
O que não aconteceu
Em nenhum dos dois meses o preço do dinheiro comandou o humor. A Selic a 14,25% não conteve o medo; a Selic a 3,75% não o dissipou. Quem esperasse que juro alto sustentasse o real, ou que juro baixo acendesse o apetite por risco, leria o tabuleiro pela variável errada. O custo do dinheiro mudou de extremo a extremo; a aversão, não.
Veredito honesto
O nível da Selic diz pouco sobre o humor de um mês de estresse — em 2015 e em 2020, foi o medo, e não a taxa, quem ditou a leitura. Mas a honestidade pede limite: março/2020 fechou sem a estabilidade que permitiria classificar o regime com confiança, e comparar dois pânicos de origens distintas — fiscal num caso, sanitário no outro — explica menos do que parece. O juro não mandava no humor; tampouco o substituía como causa.
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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Dólar · Cíclicos × defensivos
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
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