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Quando tudo concorda — janeiro de 2017 e o consenso que não durou um trimestre

Episódio

O extremo

Por meses, o mercado brasileiro falou em duas vozes. O humor sentia uma coisa; o preço fazia outra. Em janeiro, as vozes se calaram numa só — e foi o silêncio do desacordo, não o acordo, que merecia atenção. O ânimo doméstico, que rastejava em terreno morno, reabriu para o otimismo extremo, e a estrutura de preços relativos, já inclinada ao risco, fincou-se de vez no mesmo lado. Quando todos os relógios marcam a mesma hora, não sobra quem pergunte as horas. Em números: o humor saltou de 42,6 para 71,5, o Índice de Risco Perene de 38,7 para 82,7, e a razão Commodities/IBOV esticou para +2,13 desvios — o maior movimento do mês. A Selic encerrou em 13,0%, o primeiro corte abaixo do platô de 13,75% que dominara o fim de 2016.

O que aconteceu depois

O consenso não atravessou o trimestre. Em abril, o humor desabou tão rápido quanto subira: o Índice Ânima despencou de 36,3 para 23,0, de volta ao pessimismo, enquanto o capital seguia correndo — o intermercado subiu para 76,87. As duas vozes voltaram a se contradizer, agora com o termômetro do sentimento gelando enquanto a corrente de capital esquentava. Em julho, o humor atravessou o espectro inteiro outra vez, de 12,6 a 67,9 num único mês. A reconciliação de janeiro foi a primeira de uma série de desencontros.

O que não aconteceu

A concordância de janeiro não trouxe estabilidade. Quem leu "tudo aponta para o mesmo lado" como solidez teria errado: três meses depois, o humor estava no fundo do poço. O otimismo extremo do Ânima não se sustentou. E a liderança das commodities, esticada a +2,13 desvios, tampouco se manteve — até janeiro do ano seguinte, as financeiras tomariam a dianteira, com aquela mesma razão recuando de mais de dois desvios para perto de zero.

Veredito honesto

A leitura acertou o regime — risco no comando —, mas o alinhamento de todos os indicadores mede adesão, não durabilidade. O mês registrou consenso, e consenso é, por definição, o momento de menor margem para surpresa agradável. A série não diz que o otimismo estava errado. Diz que, quando ninguém discorda, falta no quadro exatamente quem o sustentaria na primeira dúvida.

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

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