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O otimismo que o mundo não assinou — janeiro de 2022

Episódio

O extremo

Durante meses, a bolsa brasileira agiu como quem não larga o guarda-chuva nem no sol. O dinheiro procurava o que paga renda e não depende do crescimento — fundos imobiliários, distribuidoras de energia, os abrigos de sempre. Em janeiro de 2022 o arranjo foi desmontado de uma vez: os abrigos de renda perderam o trono, e quem sentou no lugar foram os bancos. O humor interno, que vinha rastejando no chão, dobrou de tamanho e cruzou para o apetite de risco, como se a espera tivesse enfim acabado. Em números: a razão IFIX/IBOV caiu de um z de 1,74 a -0,05, e Utilities/IBOV de 1,67 a -0,05, enquanto Finanças/IBOV saltava de -0,36 a 1,30. O Ânima dobrou de 25,1 a 49,0 e o eixo de risco perene foi de 46,5 a 78,7. Selic em 9,25% ao ano, dólar a R$ 5,53.

O que aconteceu depois

A virada não vingou. Em abril, três meses depois, o mercado rastejou de volta para o abrigo: a razão IFIX/IBOV refez o caminho ao contrário, de -1,12 a 0,94, e as commodities em real voltaram ao topo, num z de 1,64. Os cíclicos, que mal tinham assumido a dianteira, cruzaram outra vez para o terreno negativo. O trono trocou de dono de novo. E a aposta de janeiro, quando maturou seis meses depois, entregou -8,0% — abaixo de tudo o que configurações parecidas costumavam render, numa faixa central que ia de +9,3% a +20,5%.

O que não aconteceu

O mundo nunca assinou embaixo. O otimismo de janeiro foi uma aposta doméstica: o humor e os preços relativos viraram para o risco, mas o exterior recusou o aval. O risco global seguia em 41,2, em aversão moderada, e a própria grade de intermercado esfriou no caminho — de 85,28 a 57,72, do risk-on forte ao apenas moderado. Não era o começo de um mercado de alta; era entusiasmo de portas para dentro. E entusiasmo sem confirmação externa não fez fundo nem fez topo: fez mais um giro.

Veredito honesto

A leitura acertou a rotação — o capital de fato trocou o abrigo pelo banco —, mas teria errado quem lesse aquilo como virada de ciclo. O próprio Radar hesitou: o humor cruzou para risk-on enquanto o regime estrutural seguia classificado como defensivo, em 43,1. A divergência entre o de dentro, que comemorava, e o de fora, que não endossava, estava no relatório desde o primeiro dia. Quando os dois discordam, o mês raramente se resolve. Este não se resolveu.

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar · Cíclicos × defensivos

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

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