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O otimismo que acendeu sozinho — agosto de 2022

Episódio

O extremo

Foi um otimismo sem plateia. Enquanto o resto do mundo ainda lia risco com cautela, o investidor brasileiro encontrou um motivo para respirar que ninguém lá fora compartilhava: uma surpresa deflacionária. Os preços recuaram, o humor acendeu, e a bolsa passou a se reorganizar como quem aposta no fim de um incêndio. Só que essa confiança nascia descolada de tudo ao redor. Em números: o índice Ânima saltou de 47,1 para 64,4 e o termômetro de risco interno foi de 64,6 a 87,0 — risk-on definido —, enquanto o risco global lia 32,5, em risk-off. Por dentro, o capital trocou commodities (Commodities/IBOV de −1,35 para −2,17) por cíclicos e bancos (Finanças/IBOV de 1,84 a 2,20). A Selic, cravada em 13,75% sobre uma inflação negativa, remunerava o caixa parado a um juro real raro.

O que aconteceu depois

O otimismo não virou tendência; virou pêndulo. Em novembro, três meses depois, o ânimo desabou — o Ânima caiu de 75,0 para 45,9 e o risco interno despencou de 88,4 a 25,9, de volta ao risk-off. Em fevereiro/2023 acendeu e apagou outra vez, com o Ânima recuando de 67,6 para 26,6. E quando o humor finalmente reacendeu ao extremo, em meados de 2023, foi o apetite por risco que colapsou: em agosto/2023 o Índice de Risco Perene foi de 85,4 a 0,0 num único mês, enquanto o Ânima apenas perdia o exagero. O termômetro acendia e apagava; a engrenagem por baixo seguia outro relógio.

O que não aconteceu

O otimismo de agosto não inaugurou um ciclo de apetite sustentado. A surpresa deflacionária que o acendeu não durou — o IPCA voltou a acelerar para 0,84% já em fevereiro. A Selic não cedeu para validar a euforia: ficou em 13,75% por quase um ano e ainda lia 13,25% um ano depois. E a divergência com o mundo não se resolveu a favor de casa: foi o ânimo doméstico que, repetidas vezes, voltou para perto do desconforto global — não o contrário.

Veredito honesto

O termômetro de humor acertou o pulso do mês, mas não a direção do ciclo. Otimismo que acende sozinho — descolado do mundo, com o caixa rendendo tanto — é o tipo que oscila, não o que sustenta. O ânimo é a parte mais volátil do conjunto: sobe quarenta pontos num mês e devolve no seguinte. Quem o leu como convicção leu mal; era apenas respiro.

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

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