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A anomalia que trocou de sinal
Artigo
O extremo
Um mesmo medidor de preços anunciou, em dois meses distintos, catástrofes opostas — e das duas vezes com força bastante para disparar o mesmo alarme estatístico. No ano da euforia sob o juro de 15, o IGP-M recuou até o fundo da própria escala: lido sozinho, o número descrevia deflação instalada. Em números: em junho/2025 o índice veio a −1,67% no mês, anomalia de z −4,09. A Selic marcava 15,0% ao ano; o dólar, R$ 5,55. O IPCA mal se moveu, contido em 0,24%.
O que rima
Menos de um ano depois — dez meses, para ser exato — o mesmo índice trocou de sinal e de extremo. No ano em que as defesas cederam juntas, o IGP-M de abril/2026 subiu a 2,73% no mês e cravou o extremo oposto, z 3,33. O spread entre IGP-M e IPCA também acendeu, z 3,03: a pressão corria por cima, no atacado, à frente do consumidor. O IPCA seguia comportado, em 0,67%. A Selic havia cedido pouco, para 14,5% ao ano, e o dólar estava mais baixo, a R$ 5,03 — mais barato do que no auge da deflação, o oposto do que a intuição pediria.
O que não aconteceu
A leitura ingênua — a economia saiu da deflação e entrou na inflação — não se sustenta. O índice que os brasileiros sentem no bolso mal registrou o drama: o IPCA passou de 0,24% para 0,67%, sem jamais tocar uma anomalia. Quem foi de um extremo a outro foi só o medidor de atacado. O IGP-M não descreveu uma virada de regime; descreveu a amplitude de um termômetro que fica a montante, onde câmbio e preços de fábrica batem antes de chegar à prateleira.
Veredito honesto
A anomalia não mudou de natureza; mudou de sinal. O IGP-M pode gritar deflação e inflação num intervalo curto porque mede a parte do sistema de preços que se move primeiro e mais forte — a mesma razão pela qual o IPCA, mais lento, raramente chega a disparar o alarme. Dois extremos opostos, o mesmo aparelho, menos de um ano entre eles. O medidor foi ao fundo e ao teto; o custo de vida, no meio, quase não percebeu.
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Personagens: Anomalia estatística
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
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