Radar Perene / Artigos / episódio
O estímulo que não empolgou — o juro no piso e o mês que recusou o drama (set/2012)
Episódio
O extremo
Raramente o dinheiro foi tão barato no Brasil — e raramente um mês teve tão pouco a dizer. A Selic estava no fundo de um ciclo de cortes, o juro real comprimido empurrava o capital para fora da renda fixa, e a receita para a euforia parecia toda servida. O mercado bocejou. Em números: o maior deslocamento de razão da estrutura foi de apenas 0,79 desvio — contra 1,13 em junho e 1,36 em agosto —, com o Índice de Risco Perene subindo de leve de 47,5 para 57,0 e o intermercado de 38,32 para 48,2, ambos no neutro confortável. O pouco que se moveu foi convergência: os abrigos esticados desinflavam de volta à média (Utilities/IBOV de 1,33 a 0,54, a matéria-prima em real de 1,70 a 0,95) enquanto o setor financeiro ganhava o maior terreno do mês. Selic meta a 7,5% ao ano, dólar a R$ 2,028.
O que aconteceu depois
A calma não era um chão; era uma pausa antes da gangorra. Três meses depois, em dezembro, o Risco Perene saltava de 20,6 para 78,6 — sinal de que novembro havia mergulhado no medo antes de a confiança voltar de supetão, com Finanças/IBOV avançando 1,69 desvio num único mês. Aos seis meses, março de 2013 contava outra história: o dinheiro escolhia o abrigo, não o risco, e o episódio de setembro maturava num retorno de −7,0%. E aos doze meses, o próprio estímulo já recuava — a Selic, que setembro pegara no piso a 7,5%, voltava a 9,0% ao ano.
O que não aconteceu
O estímulo máximo não acendeu rali nenhum. Quem leu a trégua de setembro como início de uma alta sustentada errou o roteiro: o capítulo seguinte foi de medo — Risco Perene a 20,6 em novembro —, não de festa. O juro no piso tampouco era piso de uma era longa de dinheiro barato: em um ano ele já subia. E a serenidade não premiou quem ficou parado; seis meses adiante, o retorno observado foi negativo.
Veredito honesto
A leitura de trégua acertou o regime — o motor classificou o episódio como acerto, com −7,0% em seis meses, dentro da faixa central da distribuição (p25–p75 de −8,8% a +13,3%). Mas a base era rasa: apenas cinco episódios comparáveis e dispersão de 22,1, larga demais para ensinar muito sobre a próxima vez. Fica o registro incômodo: foi quando as condições mais convidavam ao risco que o mercado menos se mexeu — e a quietude antecedeu uma deriva de −7%, não uma alta.
Continue a história: O primeiro corte de juro · A Selic como personagem do regime · O dólar como termômetro de regime →
O Radar lê esses regimes todos os dias. Veja a leitura de hoje →
Leia também: O primeiro corte de juro: a Selic confirmou o que o mercado já tinha lido · Os juros (Selic) no Radar: o pano de fundo dos regimes · O dólar como termômetro de regime
Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
Ver a leitura de hojeConhecer a Edição Founder →