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O extremo que mudou de endereço — as commodities de 2011
Episódio
Há extremos que estouram, e há extremos que apenas mudam de endereço. O começo de 2011 foi do segundo tipo, embora ninguém pudesse saber disso enquanto acontecia.
O extremo
As commodities precificadas em real abriram o ano no topo da hierarquia do mercado brasileiro, com um prêmio que beirava o desconfortável — o tipo de leitura que raramente se sustenta. Quando março chegou, esse prêmio começou a escoar, e o capital que ele liberava não sumiu: foi para a energia que mantém as luzes acesas. Em números: a razão Commodities (R$)/IBOV recuou de 3,27 para 1,56 desvios — o maior movimento do mês —, enquanto Utilities/IBOV subiu de 1,39 para 2,89. O Índice de Risco Perene, no mesmo passo, recompôs-se com violência, de 14,5 para 74,4, e o intermercado cedeu para 31,56. A superfície dizia confiança; a tubulação por onde o dinheiro corria, cautela.
O que aconteceu depois
O extremo não estourou. Dissolveu-se devagar, ao longo de um ano. Em junho, três meses depois, o setor financeiro deixou a enfermaria — Finanças/IBOV de −0,67 para −0,04 — e as commodities seguiram cedendo, com o regime doméstico ainda firme em 65,7. Em setembro, seis meses depois, o ágio das matérias-primas desabou de vez, com Commodities (R$)/IBOV caindo de 2,67 para 1,12, e o Risco Perene voltou ao terreno neutro, em 50,7, mesmo com o dólar saltando para R$ 1,75. Em março de 2012, doze meses depois, o capital que saíra das commodities havia se empilhado nas elétricas: Utilities/IBOV cravou 3,21 desvios — um extremo ainda maior do que o que abrira o ano. O prêmio apenas mudara de endereço.
O que não aconteceu
O regime doméstico não quebrou. Por todo o período, a leitura brasileira permaneceu em risco assumido — 72,6, depois 65,7, depois 62,7 — enquanto a estrutura por baixo escavava defesa. A divergência entre os dois eixos não se resolveu num pânico nem numa reconciliação: alargou-se por quatro trimestres. E o corte da Selic, quando veio em 2012, para 9,75% ao ano, não trouxe alívio à estrutura — o mercado o leu como aperto de margem bancária, e Finanças derreteu mais.
Veredito honesto
O motor acertou a natureza do movimento — capital deixando o cíclico pelo defensivo — e não a velocidade. Um extremo no topo de uma série não é um relógio: não diz quando reverte, nem se reverte. Em 2011, ele não reverteu. Migrou, desvio por desvio, para o outro lado da tela, e levou um ano inteiro para chegar lá.
Continue a história: O setor que sai da enfermaria (junho/2011) · O ágio das matérias-primas se dissolve (setembro/2011) · A trincheira escavada à luz do dia (março/2012) →
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