Radar Perene / Artigos / episódio
O cofre vestido de commodity — julho de 2015
Episódio
O extremo
Parecia o despertar de um ciclo de matérias-primas. As commodities medidas em real dispararam contra o Ibovespa e foram parar no ponto mais distante de toda a sua história — um dos abrigos mais esticados que o dinheiro procurou naquele mês, ao lado das concessionárias de energia e dos papéis que não dependem da atividade. Mas ninguém ali estava comprando minério ou petróleo pela demanda. Estava comprando o dólar embutido neles. Era um cofre vestido de commodity. Em números: a razão Commodities (R$)/IBOV saltou de 1,18 para 2,05, a dois desvios da própria média, enquanto o humor doméstico subia para 79,1 e a estrutura de intermercado afundava para 21,3 — apetite na superfície, defesa na fundação. Dólar a R$ 3,2231.
O que aconteceu depois
O cofre só fez encher. Em setembro a mesma razão chegou a 2,60 de desvio, e em outubro o dólar já beirava R$ 3,88 — a moeda fraca inflando o valor em real de quem exporta. Em janeiro de 2016 o medo bateu o teto: o dólar fechou pela primeira vez acima de R$ 4, e o outro abrigo, as concessionárias de energia, marcou 3,28 de desvio, o ponto mais alto da série. Então, devagar, o esconderijo se esvaziou. Em julho de 2016, com o real de volta a R$ 3,27, a razão Commodities (R$)/IBOV não estava mais nas alturas: tinha desabado para -2,13, a maior deterioração relativa do mês. A moeda apreciada corroeu exatamente o que a moeda fraca havia inflado.
O que não aconteceu
O salto de julho não anunciava boom nenhum de matérias-primas. Não veio recuperação da demanda global por minério ou petróleo — veio medo do real, vestido de commodity. E o nível do câmbio, sozinho, não explicava o cofre: julho de 2015 (R$ 3,22) e julho de 2016 (R$ 3,27) tinham quase o mesmo dólar e leituras opostas. O que movia a fechadura era a direção do medo, não a fotografia da moeda.
Veredito honesto
A leitura acertou a natureza do movimento — refúgio cambial, não aposta exportadora — e o ano confirmou quando o cofre se esvaziou. Mas não soube cravar o tempo. O esconderijo ficou mais cheio por seis meses antes de murchar. Extremo não é virada; é um estado que pode durar todo um inverno.
Continue a história: O salto de commodities que era câmbio — abril de 2016 · A commodity que só rende em reais — maio de 2013 · O fim do reinado das commodities →
O Radar lê esses regimes todos os dias. Veja a leitura de hoje →
Leia também: O salto das commodities que era câmbio — abril de 2016 · A commodity que só rende em reais — quando o ganho era câmbio (mai/2013) · O fim do reinado das commodities — dois desvios em um mês, e o trono nunca voltou
Personagens: Commodities · Dólar
Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.
Ver a leitura de hojeConhecer a Edição Founder →