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Como se reconhece um fundo: pelo que não grita

Artigo

O extremo

Ninguém sabe que está no fundo enquanto está nele. Por dentro, o meio de uma queda e o seu fim têm o mesmo som — o pessimismo no teto, os preços raspando o chão, a mesma vontade coletiva de que aquilo termine logo. Vistas de perto, quatro travessias do mercado brasileiro separadas por mais de sete anos parecem a mesma cena repetida. Só quando as quatro se encostam numa página aparece o que as distingue. E não é o medo.

O medo é a parte que se repete. Em agosto de 2015 — a crise que ensinou o Brasil a temer a si mesmo — o humor não caiu: desabou. Em números: o Índice de Risco Perene despencou de 79,1 para 0,0, o piso absoluto da escala, no mesmo mês em que o dólar fechava a R$ 3,5143 e a dívida pública alcançava 62,97% do PIB — três séries independentes fora de banda ao mesmo tempo. Sete anos depois, em dezembro de 2022 — a casa às escuras —, foi a estrutura que tocou o chão: o score de intermercado abriu o mês em 39,79 e fechou em 0,17, o fundo da régua. Dois pisos, duas anatomias. É aí que a semelhança termina.

O que rima

Entre esses dois extremos moram os outros dois retratos, e é neles que a estrutura mostra ter relógio próprio.

Volte a março de 2016 — a virada que a estrutura viu antes. O humor chegaria ao delírio: o índice de ânimo saltou de 51,8 para 95,5, otimismo extremo. Só que esse foi barulho tardio. A estrutura já vinha se recompondo havia três meses, desde o fundo de preço de janeiro. O intermercado subira de 12,19 em dezembro para 22,43 e, então, para 43,29; os bancos, medidos por Finanças/IBOV, voltaram de −1,65 a 0,18 — quase dois desvios de reabilitação num único mês. Quando o ânimo finalmente gritou comprar, a estrutura já comprara em silêncio, um trimestre antes, com a Selic ainda cravada em 14,25% ao ano — o juro seria o último a se mexer. O Risco Perene mal saíra do neutro, em 54,0, e o regime doméstico seguia defensivo, em 37,9. Esse fundo emendou um ciclo.

Agora março de 2020 — o susto que acelerou tudo — inverteu a ordem. Ali quem correu primeiro foi o sentimento: o Ânima raspou o piso, de 4,1 para 2,6, enquanto o dólar cravava anomalia estatística a R$ 4,8839 e o Banco Central cortava a Selic para 3,75% ao ano. A estrutura ampla, porém, recusou-se a acompanhar: o regime brasileiro ainda marcava risk-on em 56,8, herança que levara meses para se formar e não se desfez em trinta dias. O sentimento no chão dizia fim do mundo; a estrutura, que não rompera, dizia outra coisa. Semanas depois, o mundo não acabou.

Postos lado a lado, os dois desenham o padrão. Em cada uma dessas travessias o humor esteve num extremo — é por isso que todas soam como fundo. O grito é uniforme. A estrutura, não: ora vira antes e o fundo puxa um ciclo, como em 2016; ora resiste e o susto passa rápido, como em 2020. O sentimento no fundo é o ruído que se repete; a estrutura no fundo é a informação que muda de caso para caso.

A leitura fácil

A leitura fácil pega esse padrão e o converte em regra: ignore o humor, siga a estrutura. Confortável — e incompleta.

Porque a estrutura também engana quando é lida como veredito. Agosto de 2015 rompeu por inteiro: não só o Risco Perene em 0,0, mas o próprio intermercado encolhido de 21,32 para 14,64, os bancos despencando a −2,0387. A estrutura tocou o fundo — e não era o fundo. Os meses seguintes pioraram; o piso de preço só viria em janeiro de 2016, adiante. Nem todo fundo marca uma virada; às vezes marca só o meio da queda.

Dezembro de 2022 mostra a outra falha do mesmo atalho. A estrutura tocou o chão — intermercado em 0,17, cíclicos contra defensivos afundando de −0,73 para −1,16 —, mas um único eixo destoou: o risco interno subiu de 25,9 para 37,3, de volta ao neutro. Uma casa às escuras por fora, um cômodo aceso por dentro. Esse fundo de estrutura não emendou ciclo nenhum: abriu um ano de discordância, com o dólar esticado a R$ 5,24 e a Selic em 13,75% ao ano. A estrutura vira antes do humor, quase sempre — mas "antes" não é "no dia", e "quase sempre" não é "sempre".

A pergunta que ficou

Fica o problema de quem lê ao vivo, sem o benefício do retrovisor: se a estrutura sussurra antes de o humor gritar, como distinguir, no instante, o sussurro que anuncia uma virada daquele que é apenas o meio de uma queda mais longa? Em 2016 o sussurro era real; em 2015, era o vão da escada. A pergunta que nenhum piso responde sozinho está em Será que este é o fundo? →.

Veredito honesto

Um fundo se reconhece pelo que não grita. Em quatro travessias de anatomias distintas, o humor esteve sempre no extremo — o Risco Perene em 0,0 em 2015, a euforia a 95,5 em 2016, o Ânima no piso em 2020, o desânimo de 2022 — e por isso o sentimento é o pior dos relógios: marca a mesma hora em todos. A estrutura de intermercado carrega mais informação e costuma se mover antes, no seu próprio compasso. Mas a leitura honesta para aqui. A estrutura diz para onde o capital está indo, entre o ciclo e o abrigo; não diz em que dia a queda termina. Em 2016 o giro da estrutura virou ciclo; em 2022, o mesmo piso abriu dissonância; em 2015, o rompimento foi só o meio do caminho. Reconhecer um fundo e cravá-lo são verbos diferentes: a estrutura ajuda no primeiro e cala no segundo.

Continue a história: Será que este é o fundo? · Dois fundos de estrutura, dois desfechos · O fundo de 2016: a estrutura antes do humor →

O Radar lê esses regimes todos os dias. Veja a leitura de hoje →

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Humor · Fluxo (apetite por risco)

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

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