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A calma que dependia do silêncio — janeiro de 2015 e o humor que desabou de uma vez

Episódio

O extremo

Por um trimestre inteiro, o humor doméstico pareceu ancorado. Outubro recuperou o ânimo para 92,9; novembro e dezembro o mantiveram acima de 90, com variações discretas — a aparência de uma convicção firme. Janeiro desfez a ilusão em trinta dias. O apetite não recuou: desabou, do território de risco direto para a aversão declarada, no movimento mais abrupto da série acompanhada aqui. A calma anterior, ficou claro, dependia menos de convicção do que da simples ausência de um gatilho. Em números: o Índice de Risco Perene de 90,4 para 15,6; a leitura de intermercado de 49,4 para 41,5; o eixo global em 36,4. Por dentro da bolsa, nem o refúgio escapou — a razão Utilities/IBOV caiu de −0,68 para −2,17 de desvio, sinal de venda generalizada. O único cômodo que ganhou luz foram os fundos imobiliários: o IFIX/IBOV subiu de +0,19 para +1,43.

O que aconteceu depois

A aversão não seguiu uma linha reta. Em abril, o humor sequer confirmou o pânico — subiu de 55,2 para 59,4 e rondou o neutro, num realinhamento morno em que os prêmios do mês anterior se desfizeram sem que uma direção nova nascesse. Em julho veio a armadilha: o Índice de Risco Perene saltou para 79,1, de volta ao apetite, enquanto a estrutura de intermercado afundava para 21,32, em aversão pronunciada. Dois relógios na mesma parede. O otimismo era seletivo — confiança num punhado de abrigos de carrego, não na economia que os cercava. Só em janeiro/2016 a conta fechou: o intermercado despencou a 13,07, o dólar cruzou R$ 4 pela primeira vez e a dívida pública alcançou 66,51% do PIB.

O que não aconteceu

O tombo de janeiro não foi o fundo — foi o começo de um. Quem leu a aversão declarada como exagero pontual subestimou a duração: a deterioração se estendeu por todo o ano. E o número que pareceu reabilitar o humor — o Índice de Risco Perene de volta a 79 em julho — foi a cilada, não a redenção: a estrutura por baixo seguia em retirada. O dólar a R$ 2,63 tampouco reverteu; um ano depois passava de R$ 4. E a Selic, em 12,25%, não era teto: subiria a 14,25%.

Veredito honesto

Maturada em seis meses, a leitura de janeiro fechou como acerto — retorno de 5,0%, dentro de uma faixa que ia de −1,7% a +23,6%, sobre base estreita de apenas nove episódios. Mas o que janeiro de fato revelou não foi para onde os preços iriam, e sim que a serenidade de 2014 não tinha alicerce. O humor pode desabar num único mês; a convicção, quando nunca existiu, não deixa aviso.

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Personagens: Estrutura (intermercado) · Fluxo (apetite por risco) · Humor · Dólar

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

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