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Ipeadata: onze mil séries que viram pesquisa

◦ Metodologia v2.2 dos índices (working papers com DOI). Ver metodologia.

Ciência

Os artigos anteriores desta trilha visitaram quatro casas — Banco Central, B3, IBGE, Tesouro, CVM —, cada uma dona do seu pedaço do dado brasileiro. Falta a casa que não produz quase nada e por isso mesmo resolve um problema que nenhuma das outras resolve: o do pesquisador que precisa de séries de cinco fontes diferentes, na mesma mesa, no mesmo formato. Essa casa existe desde os anos 1990, tem interface que trai a idade e segue insubstituível.

O Ipeadata é a base de dados pública do IPEA — Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada — que agrega, num único portal e num formato uniforme, milhares de séries econômicas, financeiras, regionais e sociais produzidas por dezenas de instituições: do câmbio do século XIX ao indicador municipal do censo mais recente. Na contagem do próprio portal, são mais de onze mil séries.

A palavra-chave é agrega. O Ipeadata é um curador, não um produtor: a Selic que está lá vem do Banco Central; o IPCA, do IBGE; as séries fiscais, do Tesouro e do BCB. O valor está na reunião — e em três serviços que a reunião presta.

Três serviços que só o agregador presta

O primeiro é a profundidade histórica. O Ipeadata guarda séries longas que as fontes primárias nem sempre expõem com o mesmo alcance — câmbio, preços e agregados que recuam décadas, em alguns casos séculos, costurados de fontes históricas documentadas. Para as perguntas desta casa, que vive de comparar o presente com o maior passado disponível, esse alcance é matéria-prima direta.

O segundo é a fronteira que ninguém mais cobre no mesmo balcão: as séries regionais e sociais. PIB municipal, indicadores estaduais, dados demográficos e de renda — o subtítulo deste artigo existe porque a fama do portal ("macro de sala de aula") esconde justamente essa metade. Pesquisa aplicada que cruza mercado com território — crédito por região, emprego e ciclo local — encontra ali o que exigiria garimpo em meia dúzia de fontes.

O terceiro é a padronização: séries de origens diferentes saem na mesma estrutura, com nome, fonte, periodicidade e unidade declaradas. Quem já harmonizou manualmente três formatos de arquivo de três órgãos entende o tamanho do serviço.

Do catálogo à hipótese: o pipeline

A pauta desta seção promete descrever como uma série "vira pesquisa", e o caminho da casa pode ser contado em quatro passos, sem segredo de método.

Passo um: a pergunta antes do catálogo — navegar onze mil séries sem hipótese é turismo, agradável e infértil. Passo dois: a localização da série candidata e, imediatamente, a leitura da ficha — fonte original, periodicidade, unidade, data de fim. Passo três, o mais importante e o menos praticado: a conferência na fonte primária. O agregador é um espelho; espelhos atrasam e, raramente, distorcem — a casa trata o Ipeadata como índice de descoberta e confirma o dado decisivo na origem antes de publicá-lo. Passo quatro: a série entra no protocolo comum desta trilha — data da consulta carimbada, contraste com o próprio histórico, hipótese declarada antes do teste.

Um exemplo do acervo fecha o circuito. O ensaio sobre agosto de 2015 — o mês em que três séries entraram em território raro ao mesmo tempo — tem como protagonista a dívida pública em proporção do PIB, que atingia 62,97% ("A dívida pública em anomalia rara"). A série é apurada pelo Banco Central, como o artigo anterior desta trilha detalhou — e está também no Ipeadata, no tema de finanças públicas, ao lado do câmbio e das séries de juros que o mesmo ensaio menciona. Para o leitor que quiser refazer aquele agosto inteiro, o agregador é o único lugar onde todas as peças do episódio estão na mesma prateleira. É exatamente esse o seu papel numa pesquisa: não substituir as fontes, e sim deixá-las comparáveis.

O aviso de sempre, na dose certa

Dado agregado herda as revisões, as descontinuidades e as trocas de metodologia das fontes — e as fichas do Ipeadata documentam parte disso, não tudo. A régua desta trilha se aplica na íntegra: citação com nome exato da série e data de consulta, conferência da fonte primária quando o número carrega o argumento, e desconfiança metódica de séries emendadas de metodologias diferentes, que às vezes escondem uma costura onde o pesquisador enxerga uma tendência.

Perguntas frequentes

O Ipeadata é a fonte primária de alguma coisa?

De quase nada — e é essa a sua função. As séries têm origem declarada em outras instituições; o IPEA as reúne, padroniza e documenta. Citação rigorosa nomeia os dois: a fonte original e o agregador consultado.

Qual a diferença para o SGS do Banco Central?

O SGS é fonte primária das séries monetárias e financeiras e espelha alguns agregados; o Ipeadata cobre um território maior — regional, social, histórico — agregando dezenas de fontes. Para série financeira pura, o SGS basta; para cruzamentos, o Ipeadata poupa semanas.

As séries são atualizadas com que frequência?

Cada série herda o calendário da fonte original, com a defasagem própria de um agregador. A ficha de cada série informa a última atualização — dado que pertence a qualquer citação.

Existe acesso por API?

Sim, com documentação pública, além da consulta e exportação pela interface web. A escolha entre os dois é de escala, não de acesso.

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A trilha dos dados abertos termina onde a seção inteira começou. Com as cinco casas na mesa — séries, tabelas, estoques, informes —, a pergunta deixa de ser "onde encontro dados?" e volta a ser a primeira de todas: o que exatamente se quer testar? É a releitura, agora com o dado em mãos, de Como nasce uma pesquisa.

Leituras da casa: essas séries desembocam todos os dias na leitura do Diário; os episódios que elas reconstroem, no Atlas.

Escolher e tratar uma série específica para uma pergunta do leitor é o tipo de trabalho que a casa faz sob encomenda.

Leia também: Como nasce uma pesquisa: da pergunta à hipótese · A dívida pública em anomalia rara — o alarme silencioso de agosto de 2015 · Dados abertos do BCB: do SGS à leitura do Diário

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