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Dados abertos da B3: o que é público e o que é pago
◦ Metodologia v2.2 dos índices (working papers com DOI). Ver metodologia.
Ciência
A cotação que aparece de graça no portal de notícias chega atrasada — em geral quinze minutos depois do negócio acontecer. O investidor que quer o preço no instante paga por ele. Essa fronteira, que todo usuário de home broker conhece de vista, organiza o mundo inteiro dos dados da bolsa brasileira: o tempo real é o produto; o histórico é, em grande parte, patrimônio público. E para pesquisa — ao contrário do que se supõe — o lado gratuito da fronteira é o mais valioso.
A B3 disponibiliza gratuitamente o histórico de cotações de fechamento do mercado de ações — as séries diárias de preços, volumes e negócios — enquanto cobra pelos dados em tempo real e pelos produtos analíticos que constrói sobre eles. A distinção não é de qualidade, é de latência: o mesmo negócio que custa dinheiro para ser visto no momento em que ocorre torna-se público no fechamento do dia.
O lado público: mais fundo do que parece
A peça central do acervo gratuito é a série histórica de cotações — os arquivos conhecidos pelo nome técnico de COTAHIST, publicados no site da B3. Em números: os arquivos anuais cobrem o mercado desde 1986, papel por papel, pregão por pregão — quatro décadas de fechamentos, máximas, mínimas e volumes, para baixar sem cadastro. O formato é espartano (arquivos de posição fixa, com layout documentado), o que costuma assustar no primeiro contato e deixar de importar no segundo: uma vez lido, o arquivo é dos conjuntos de dados mais completos que um pesquisador de mercado encontra de graça em qualquer lugar do mundo.
Ao redor dessa peça central há mais: as composições e metodologias dos índices (Ibovespa, IFIX, os setoriais), os boletins diários, as estatísticas de mercado e o portal para desenvolvedores, com APIs de consulta. Para perguntas de pesquisa — regimes, ciclos, relações entre setores, comportamento de longo prazo — nada disso exige um centavo.
Um aviso de ofício, porém, acompanha o presente: os preços dos arquivos históricos são os preços negociados, sem ajuste por proventos. Dividendos, desdobramentos e grupamentos aparecem como degraus na série bruta, e ajustá-los é tarefa do pesquisador — a bolsa fornece o registro fiel do pregão, não a série pronta para retorno total. Quem compara um estudo feito sobre preços ajustados com outro feito sobre preços brutos está, sem perceber, comparando dois objetos diferentes. É o tipo de detalhe que nenhum resumo de metodologia pode omitir honestamente.
O lado assinado: para quem o tempo importa
O que a bolsa vende é, essencialmente, velocidade e profundidade. Os feeds de market data em tempo real, distribuídos a corretoras e provedores, alimentam telas e algoritmos que precisam do preço agora; o livro de ofertas completo e os dados intradiários detalhados seguem o mesmo regime. Produtos analíticos empacotados, como as plataformas de dados da própria bolsa, também são contratados. É uma divisão coerente com quem usa o quê: operação precisa de instante; pesquisa, de histórico.
O que a casa faz com o lado gratuito
Os ensaios do acervo do Radar Perene — as leituras de regime, os estudos de razões entre índices, os episódios históricos do Atlas — são construídos sobre dados de fechamento, exatamente a camada pública descrita acima. Um exemplo publicado: o estudo da razão IFIX/IBOV como termômetro de aversão em março de 2020, que o leitor encontra em "O IFIX/IBOV como termômetro de aversão", usa apenas séries diárias de índices — nada que um leitor com paciência não reconstrua da mesma fonte. Os working papers da casa sobre relações intermercado no Brasil, publicados com DOI no Zenodo (10.5281/zenodo.21327663), seguem a mesma dieta: fechamento diário, fonte pública, método declarado.
Há uma lição de método embutida nessa escolha, e ela merece uma frase: pesquisa que só funciona com dado caro é pesquisa que quase ninguém pode conferir. A camada gratuita da B3 impõe um limite — nada de microestrutura, nada de intradiário — e esse limite é também uma proteção, porque mantém cada resultado ao alcance da conferência alheia.
Uma armadilha do histórico
O arquivo público traz as empresas que saíram da bolsa — e é justamente por isso que ele vale tanto. O erro clássico é o caminho inverso: montar um estudo histórico a partir da lista de empresas de hoje, herdando sem perceber apenas as sobreviventes. O COTAHIST permite evitar o erro; não impede que ele seja cometido. A diferença entre as duas coisas é o tema de outro artigo desta seção, sobre viés de sobrevivência.
Perguntas frequentes
Onde ficam os arquivos históricos da B3?
Na área de market data e índices do site da B3, sob "séries históricas". O download é aberto e o layout dos arquivos está documentado na mesma página.
Os dados gratuitos servem para backtest?
Servem para estudos com dados de fechamento — que é o horizonte da maior parte das perguntas de pesquisa. Estratégias intradiárias exigiriam dados assinados, e envelhecem em cima de outra infraestrutura.
Preciso de autorização da B3 para pesquisar com os dados públicos?
Para uso em pesquisa e análise, os arquivos abertos são de livre acesso. Redistribuição comercial de dados, sobretudo em tempo real, é o que exige contrato.
O que muda entre os dados da B3 e os do SGS do Banco Central?
São complementares: o SGS cobre séries macroeconômicas e financeiras agregadas; a B3 cobre o mercado papel a papel. Boa parte dos estudos da casa cruza os dois.
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Leituras da casa: a leitura de hoje está no Diário; os episódios reconstruídos sobre esses arquivos, no Atlas.
Transformar quatro décadas de arquivos públicos numa base de pesquisa tratada é ofício de bastidor — do tipo que a casa detalha em conversa, não em artigo.
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Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.