Radar PereneRadar Perene
← início

Radar Perene / Artigos / artigo

O dinheiro nunca esteve tão caro. O humor, nunca tão alto.

Artigo

O extremo

Um mercado que se sente invencível costuma ter dinheiro barato por trás — é o que a teoria fácil ensina. Só que o mês em que a bolsa brasileira chegou mais perto dessa sensação foi também aquele em que o crédito custou mais caro em todo o período. O humor vinha subindo havia meses, sem que o preço do dinheiro tivesse afrouxado um centavo, e no fim da escalada bateu o teto da escala. Nada no custo do crédito explicava a festa. Em números: em junho de 2025 o humor de mercado fechou em 92,3, vindo de 84,7 no mês anterior e de apenas 40,8 três meses antes — otimismo extremo, a leitura de um mercado que se sente próximo do invencível — com a Selic cravada em 15,0% ao ano e o dólar a R$ 5,55.

O que rima

Cinco anos antes, o espelho perfeito. No susto que acelerou tudo, quando o medo doméstico deixou de ser humor e virou liquidação, o Banco Central cortou a Selic para 3,75% ao ano — crédito subitamente barato — e o dinheiro de graça não comprou um único comprador. O humor, medido pelo mesmo Ânima, raspou o piso: caiu de 4,1 para 2,6, pessimismo extremo. O índice de risco perene saiu de 0,0 para 10,6, mas em saída de risco, não em retorno do apetite. O dólar fechava a R$ 4,8839, marcado como anomalia estatística. O juro no chão, o medo no fundo — e a mesma desobediência à teoria, só que pela outra ponta.

O que não aconteceu

Em nenhum dos dois meses o preço do dinheiro comandou o humor. O juro no teto de 2025 não conteve a euforia; o juro no piso de 2020 não dissipou o medo. Quem lesse o tabuleiro pela taxa — dinheiro caro esfria, dinheiro barato anima — leria pela variável errada nas duas pontas. E há uma simetria que desmonta de vez a versão simples: em 2025, sob o humor máximo, a estrutura de intermercado seguia em risk-off forte, com score em 22,19; em 2020, sob o humor mínimo, a estrutura ampla ainda marcava risk-on em 56,8. Nas duas travessias, os eixos internos discordavam entre si — e o juro não foi o fiel da balança em nenhuma delas.

Veredito honesto

O custo do dinheiro percorreu os dois extremos da sua história recente — 15,0% num mês, 3,75% no outro — e, nas duas pontas, o humor ignorou a tabela de juros. A euforia mais alta da série não nasceu do dinheiro barato; o medo mais fundo não veio do dinheiro caro. A honestidade pede limite: comparar um mês de festa com um mês de pânico de naturezas distintas explica menos do que parece, e março/2020 fechou sem a estabilidade que permitiria classificar o regime com confiança. Fica a coincidência, não a causa. A sensação de invencibilidade não precisou de dinheiro barato para aparecer — e o dinheiro barato, quando ela faltava, não a comprou.

Continue a história: Dois anos de juro alto · O carrego que virou gravidade →

O Radar lê esses regimes todos os dias. Veja a leitura de hoje →

Leia também: O juro subiu ao teto. O humor, mais alto ainda. · O carrego parou de competir. Passou a puxar.

Personagens: Humor · Juros (Selic)

Isto é a memória do Radar. A leitura de hoje — regime, 5 lentes e os análogos do dia — está no ar, de graça.

Ver a leitura de hojeAssinar o Perene Semanal · R$ 29/mês →